quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Rei, você?

A incompreensão era nítida. Realmente, não é fácil enxergar um rei debaixo de trapos, sujo e ensanguentado. O texto do Evangelho de João no capitulo 18, versículo 37 narra essa cena: “Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei?...”. O Rei eterno sendo julgado por um subordinado (miseravelmente inferior), o Senhor sendo medido por um terreno, o Justo sentenciado por um injusto, o Santo tendo sua santidade testada por um pecador. O interessante é que ali estava sendo “analisada” toda uma trajetória, uma vida, seus atos e gestos, palavras e olhares; mas em nenhum deles pode se achar algum tipo de conduta errante. No entanto, para a tradição judaica, o simples fato do seu local de nascimento já era uma afronta para se declarar rei. Um imperador sem linhagem, pobre, desconhecido, que salvador é esse?
Cicero disse: "Não importa saber onde nasceste, mas o que tu és". Aqui estava o diferencial daquele homem, compreender que a essência é mais importante do que as demais coisas; compreensão que hoje quase não se vê. Em Fp 2.6, a Nova Versão Internacional traz uma espetacular linguagem abordando essa compreensão divina: “que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se” (NVI). Parece haver um entrave em nossas mentes aqui, “embora sendo Deus...”, não diz que Ele queria ser como Deus, Ele era, e é Deus e continuará sendo por toda eternidade. Difícil entender o seu silencio diante de tal escarnio, se por um segundo um mero mortal, falível homem, tivesse nas mãos o que Ele possuía, com certeza o desfecho da historia teria sido outro; no mínimo começaria um debate, não é sempre assim quando temos razão?
Ouvi certa vez de um amigo pastor que a razão (em sua concepção popular) é a mãe de diversas mazelas sociais. É tendo “razão” que se perde a visão, escurecendo assim o caminho do direito.
Quem ele pensa que é para falar assim comigo? Você sabe com que está falando? Você consegue responder apenas dez questões do questionário que fiz a Jó? Sabia que a tua vida é sustentada por minha vontade? Talvez fosse essa a direção que o diabo tentou mostrar a Jesus naquele momento. O caminho da titularidade (Jesus Cristo – O Salvador), do poder (Senhor dos Exércitos), do nome (EU SOU), da grandeza (Senhor do Universo), do senhorio (Senhor dos Senhores)... Em termo de currículo a lista é eterna.
Mas apesar da zombaria de Pilatos: “Logo tú és rei?”, Jesus demonstra sua essência, um homem constituído de amor e graça... Um amor incomum, incompreensível, inexplicável. Mesmo sabendo que seria trocado algum minuto depois por um assassino, sua atitude é a mesma, seu gesto, olhar, não muda...
É fácil ser amável quando todos nos aplaudem; difícil é amar quando os aplausos viram pedradas.

Em oração,
Paulo Henrique.

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