quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Estou aqui

É surpreendente a narrativa do capitulo seis de Isaias. Talvez um dos textos mais explanados no decorrer da historia da igreja através da pregação expositiva, as palavras parecem saltar da pagina para nossa imaginação, é realmente embevecido o que o texto nos transmite. O profeta inicia o texto traçando um paralelo entre o humano e o sagrado, entre um rei falível e um Senhor que se assenta num alto e sublime trono. O interessante é que os mesmos olhos comtempla as “duas faces”, a visão do profeta é ampla... Apesar de o rei Uzias ser o seu referencial como monarca humano (cresceu vendo-o reinar), seu olhar vai além, consegue contemplar um soberano, acima de todos; o Senhor dos senhores, o Rei dos reis.
Isaias sabe que não se tratava de um rei comum, pois este não estava sujeito a derrotas e fracassos, seu reinado é eterno, seu poder é sem limite, de grandeza incomparável, seus “súditos” eram diferenciados, reverenciavam o seu Rei de forma diferente, exaltavam não a sua riqueza, nem mesmo a extensão do seu reino, muito menos suas conquistas e vitórias, eles exaltavam a sua santidade. Acostumado a viver em um sistema monárquico, Isaias depara com uma situação inusitada... Que rei é esse que seus servos adoram sua santidade?
Paulo Bueno diz que: “Louvamos a Deus pelo que ele faz, mas adoramos a Deus pelo o que Ele é”. Segundo a tradição judaica, a Santidade Divina é, por si, sem necessidade de revelação. Contudo, é dada a perceber — não a conhecer, por inefável — precisamente com a revelação aos homens, perfeitamente por Jesus Cristo, o Emanuel (ou Deus Conosco).
Naquele momento Isaias percebe seu estado de inferioridade, de insignificância, de mediocridade diante do Deus Altíssimo, de sua Santidade Divina: “Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos” (v. 5).
A lembrança do rei Uzias (com r minúsculo – v. 1), já era passada, agora os seus olhos viram o Rei (v. 5).
Interessante como ocorre o processo:
1º Os olhos do profeta contempla dois reis;
2º O primeiro perece, o segundo continua;
3º Com o primeiro foi sepultado a sua glória;
4º Já o segundo, sua santidade é reverenciada pelos seus;
5º Uzias reinou aproximadamente 55 anos;
6º O reinado do Senhor é eterno.
Através de seu reconhecimento como pecador, o profeta messiânico é purificado com uma brasa viva, tocada em seus lábios. Engraçado pensar que o serafim poderia ter tocado em qualquer outra parte do profeta, mas tocou em seus lábios. Salomão disse: “Quando são muitas as palavras o pecado está presente, mas quem controla a língua é sensato” (Pv 10.19). Ratificando o que disse o sábio Salomão, Jesus em Mateus 15.18 fala: “Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que tornam o homem ‘impuro” (NVI).
Hoje, muitos almejam ver a gloria de Deus, querem receber o seu toque, sentir sua presença, mas não examina o texto como deveria. Antes é necessário:
1º Ter uma visão sem apego no que é perecível, esquecer “os Uzias” do mundo;
2º Reconhecer o estado de pecador, sem justificativas;
3º Estar pronto para ser tocado, mesmo que com brasa (purificação), por que não dizer renuncia.

"Eis-me aqui. Envia-me a mim!”
A frase é muito mais séria do que bela, muito mais responsabilidade do que vontade, mais oração e dedicação do que entusiasmo.

Mas a pergunta do Senhor continua ecoando: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?”.

Em oração,
Paulo Henrique.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Rei, você?

A incompreensão era nítida. Realmente, não é fácil enxergar um rei debaixo de trapos, sujo e ensanguentado. O texto do Evangelho de João no capitulo 18, versículo 37 narra essa cena: “Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei?...”. O Rei eterno sendo julgado por um subordinado (miseravelmente inferior), o Senhor sendo medido por um terreno, o Justo sentenciado por um injusto, o Santo tendo sua santidade testada por um pecador. O interessante é que ali estava sendo “analisada” toda uma trajetória, uma vida, seus atos e gestos, palavras e olhares; mas em nenhum deles pode se achar algum tipo de conduta errante. No entanto, para a tradição judaica, o simples fato do seu local de nascimento já era uma afronta para se declarar rei. Um imperador sem linhagem, pobre, desconhecido, que salvador é esse?
Cicero disse: "Não importa saber onde nasceste, mas o que tu és". Aqui estava o diferencial daquele homem, compreender que a essência é mais importante do que as demais coisas; compreensão que hoje quase não se vê. Em Fp 2.6, a Nova Versão Internacional traz uma espetacular linguagem abordando essa compreensão divina: “que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se” (NVI). Parece haver um entrave em nossas mentes aqui, “embora sendo Deus...”, não diz que Ele queria ser como Deus, Ele era, e é Deus e continuará sendo por toda eternidade. Difícil entender o seu silencio diante de tal escarnio, se por um segundo um mero mortal, falível homem, tivesse nas mãos o que Ele possuía, com certeza o desfecho da historia teria sido outro; no mínimo começaria um debate, não é sempre assim quando temos razão?
Ouvi certa vez de um amigo pastor que a razão (em sua concepção popular) é a mãe de diversas mazelas sociais. É tendo “razão” que se perde a visão, escurecendo assim o caminho do direito.
Quem ele pensa que é para falar assim comigo? Você sabe com que está falando? Você consegue responder apenas dez questões do questionário que fiz a Jó? Sabia que a tua vida é sustentada por minha vontade? Talvez fosse essa a direção que o diabo tentou mostrar a Jesus naquele momento. O caminho da titularidade (Jesus Cristo – O Salvador), do poder (Senhor dos Exércitos), do nome (EU SOU), da grandeza (Senhor do Universo), do senhorio (Senhor dos Senhores)... Em termo de currículo a lista é eterna.
Mas apesar da zombaria de Pilatos: “Logo tú és rei?”, Jesus demonstra sua essência, um homem constituído de amor e graça... Um amor incomum, incompreensível, inexplicável. Mesmo sabendo que seria trocado algum minuto depois por um assassino, sua atitude é a mesma, seu gesto, olhar, não muda...
É fácil ser amável quando todos nos aplaudem; difícil é amar quando os aplausos viram pedradas.

Em oração,
Paulo Henrique.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ateu, eu?

Tenho observado ultimamente uma estranha mudança, sutil, mas devastadora no seio da igreja. Durante séculos, o cristianismo, têm sido um dos favoritos temas das discussões filosóficas. Sendo analisado por “deuses” dos pilares do saber, ou por meros mortais iletrados do conhecimento empírico. O certo é que mesmo sendo tão discutido tem si tornado a cada dia menos conhecido. Fala-se muito das coisas a cerca do Deus do cristianismo, mais pouco se conhece sobre Ele. Peritos na retórica do conhecer, eloquentes no falar e desenvoltos no agir, mas fracos e raquíticos no viver. A estranha mudança a que me refiro é essa... Estamo-nos tornando ateus, um ateísmo cristão tem tomado conta de nossas pacatas e sossegadas vidas (talvez esteja ai a fonte deste nascimento). Teólogos e eruditos da Palavra de Deus (os poucos que ainda preocupam), algum tempo começaram a movimentarem e expressam sua repulsa por essa “onda” que insiste crescer, e que muitos desavisados em suas enganosas manobras estão surfando. Todo esse movimento tem causado uma instabilidade na estrutura da igreja, John Stott disse ao ser questionado sobre a igreja atual: “vejo crescimento sem profundidade, muitos quilômetros de extensão, poucos centímetros de profundidade". O veneno do ateísmo cristão é mortífero. O grande problema é que parecesse que existe uma contaminação global, disseminada pelo ar da arrogância e da pouca leitura bíblica. A definição para ateísmo cristão não poderia ser melhor: “um sistema de crenças em que o Deus da cristandade é rejeitado, mas os ensinos de Jesus são seguidos”. Com raríssimas exceções, as religiões concordam que Jesus foi um grande homem, exemplo de líder e determinação, com uma visão ampla de mundo e de um gênio elevadíssimo para o seu tempo. Assim, livros e obras são confeccionados todos os dias tratando sobre o tema... Conhecemos muito sobre Jesus, e quase nada do Deus homem, discutimos muito sobre os seus feitos, mas esquecemos dos efeitos daqueles fatos. Sendo ateísmo a rejeição da divindade, e muitos hoje seguindo apenas o homem Jesus desprezando o Emanuel (Deus conosco), então meu amigo não precisa ir longe para conhecer um ou muito menos espantar ao ver um ateu se declarando, basta olhar no espelho.
Espero que você ainda possa ver a imagem de um cristão e não de um ateu.

Em oração,
Paulo Henrique.
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