É surpreendente a narrativa do capitulo seis de Isaias. Talvez um dos textos mais explanados no decorrer da historia da igreja através da pregação expositiva, as palavras parecem saltar da pagina para nossa imaginação, é realmente embevecido o que o texto nos transmite. O profeta inicia o texto traçando um paralelo entre o humano e o sagrado, entre um rei falível e um Senhor que se assenta num alto e sublime trono. O interessante é que os mesmos olhos comtempla as “duas faces”, a visão do profeta é ampla... Apesar de o rei Uzias ser o seu referencial como monarca humano (cresceu vendo-o reinar), seu olhar vai além, consegue contemplar um soberano, acima de todos; o Senhor dos senhores, o Rei dos reis.
Isaias sabe que não se tratava de um rei comum, pois este não estava sujeito a derrotas e fracassos, seu reinado é eterno, seu poder é sem limite, de grandeza incomparável, seus “súditos” eram diferenciados, reverenciavam o seu Rei de forma diferente, exaltavam não a sua riqueza, nem mesmo a extensão do seu reino, muito menos suas conquistas e vitórias, eles exaltavam a sua santidade. Acostumado a viver em um sistema monárquico, Isaias depara com uma situação inusitada... Que rei é esse que seus servos adoram sua santidade?
Paulo Bueno diz que: “Louvamos a Deus pelo que ele faz, mas adoramos a Deus pelo o que Ele é”. Segundo a tradição judaica, a Santidade Divina é, por si, sem necessidade de revelação. Contudo, é dada a perceber — não a conhecer, por inefável — precisamente com a revelação aos homens, perfeitamente por Jesus Cristo, o Emanuel (ou Deus Conosco).
Naquele momento Isaias percebe seu estado de inferioridade, de insignificância, de mediocridade diante do Deus Altíssimo, de sua Santidade Divina: “Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos” (v. 5).
A lembrança do rei Uzias (com r minúsculo – v. 1), já era passada, agora os seus olhos viram o Rei (v. 5).
Interessante como ocorre o processo:
1º Os olhos do profeta contempla dois reis;
2º O primeiro perece, o segundo continua;
3º Com o primeiro foi sepultado a sua glória;
4º Já o segundo, sua santidade é reverenciada pelos seus;
5º Uzias reinou aproximadamente 55 anos;
6º O reinado do Senhor é eterno.
Através de seu reconhecimento como pecador, o profeta messiânico é purificado com uma brasa viva, tocada em seus lábios. Engraçado pensar que o serafim poderia ter tocado em qualquer outra parte do profeta, mas tocou em seus lábios. Salomão disse: “Quando são muitas as palavras o pecado está presente, mas quem controla a língua é sensato” (Pv 10.19). Ratificando o que disse o sábio Salomão, Jesus em Mateus 15.18 fala: “Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que tornam o homem ‘impuro” (NVI).
Hoje, muitos almejam ver a gloria de Deus, querem receber o seu toque, sentir sua presença, mas não examina o texto como deveria. Antes é necessário:
1º Ter uma visão sem apego no que é perecível, esquecer “os Uzias” do mundo;
2º Reconhecer o estado de pecador, sem justificativas;
3º Estar pronto para ser tocado, mesmo que com brasa (purificação), por que não dizer renuncia.
"Eis-me aqui. Envia-me a mim!”
A frase é muito mais séria do que bela, muito mais responsabilidade do que vontade, mais oração e dedicação do que entusiasmo.
Mas a pergunta do Senhor continua ecoando: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?”.
Em oração,
Paulo Henrique.


